| Tipos
de Clonagem e Células - tronco (I).
Clonagem reprodutiva humana é internacionalmente
repudiada e clonagem terapêutica é objeto de polêmica.
O termo clonagem deriva etimologicamente do grego klón,
que quer dizer "broto". De acordo com Webber - 1903
(a data é para demonstrar que o assunto não é
recente), um clone é definido como uma população
de moléculas, células ou organismos que se originaram
de uma única célula e que são idênticas
à matriz original. Os indivíduos resultantes são
geneticamente idênticos; o genótipo será o
mesmo mas, por influência ambiental, poderão ter
diferentes fenótipos. É um mecanismo comum de propagação
da espécie em plantas ou bactérias. Em plantas,
os meristemas, melhor as células meristemáticas,
atuam como as células-tronco nos animais. Em seres humanos,
os clones naturais são os gêmeos monozigóticos
que se originam da divisão de um mesmo zigoto, originado
de um mesmo ovócito fertilizado.
No Brasil, o projeto da nova Lei de Biossegurança, aprovado
pela Câmara dos Deputados no início de fevereiro
de 2004, e que substituirá a lei vigente, de 1995, proíbe
a produção de embriões humanos destinados
a servir como material biológico. Só seria permitida
a pesquisa com células-tronco provenientes de cordões
umbilicais, medulas ósseas ou placentas. Embriões
descartados pelas clínicas de fertilização
in vitro ou produzidos por clonagem terapêutica não
poderiam ser usados para a obtenção de células-tronco.
O Projeto (PLC 9/2004), ao passar pela Comissão de Educação
do Senado (aprovado em 10 de agosto de 2004) recebeu do relator
Senador Osmar Dias um substitutivo que permite a destruição
de embriões humanos com o fim de suas células serem
transplantadas para o tratamento de adultos doentes, com autorização
do casal de doadores dos gametas, desde que estejam congelados
até três anos da publicação da lei
e que sejam inviáveis para a implantação
no processo de fertilização. Mas o projeto não
deverá ser votado tão cedo no Congresso. A proposta
que está no Senado é considerada polêmica
porque, além da questão das células-tronco,
trata também da comercialização e pesquisa
de organismos geneticamente modificados, os transgênicos.
A clonagem reprodutiva - para produzir seres humanos clonados
- continuará expressamente proibida porque não existe
a menor segurança de que crianças geradas por meio
dela serão bem formadas. Esta também é a
posição das academias de ciências de mais
de 60 países, incluindo a do Brasil, do Conselho da Europa
que adotou (em janeiro de 1998, com vigor a partir de março
de 2001) um protocolo que proíbe "qualquer intervenção
que tenha por fim criar um ser humano geneticamente idêntico
a outro ser humano vivo ou morto" e dos cientistas da Hugo
(Organização Genoma Humano), durante seu encontro
anual, em 2002, em Xangai (China).
Em dezembro de 2001, a ONU decidiu elaborar uma Convenção
Internacional Contra a Clonagem Reprodutiva de Seres Humanos,
deixando claro que a clonagem como forma de reprodução
de seres humanos é internacionalmente repudiada e uma ameaça
à dignidade do ser humano da mesma forma que a tortura,
a discriminação racial e o terrorismo. Durante as
reuniões para a elaboração desse tratado
internacional, com a participação de mais de 80
países, ficou clara a existência de um único
consenso internacional: a clonagem não deve ser utilizada
como forma de reprodução assistida em seres humanos.
O comitê legal da assembléia-geral da ONU aprovou
por apenas 1 voto (80 a favor e 79 contra, por discordarem do
texto sobre clonagem terapêutica), com 15 abstenções,
a proposta de adiar para 2005 a redação de um tratado
sobre a clonagem.
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Nessa fase ocorreria a implantação, nidação,
do embrião na cavidade uterina. As células internas
do blastocisto originariam as centenas de tecidos que compõem
um corpo humano. Seriam chamadas de *células-tronco totipotentes,
antes da divisão em grupos, ou pluripotentes, após.
A partir de um determinado momento, essas células somáticas,
não sexuais, que ainda são todas iguais, começariam
a se diferenciar nos vários tecidos que iriam compor ao
organismo: sangue, fígado, músculos, cérebro,
ossos, etc. Os genes que controlariam essa diferenciação
e o processo pelo qual ela ocorreria ainda são objeto de
pesquisa. O que sabemos é que, a partir daí, as
células somáticas diferenciadas, especializadas
para determinada (s) função (ões), perderiam
a capacidade de originar qualquer outro tecido. As células
descendentes de uma célula diferenciada iriam manter as
mesmas características daquela que as originou, isto é,
células de fígado iriam originar células
de fígado, células musculares iriam originar células
musculares, e assim por diante. Apesar de o número de genes
e o DNA serem iguais em todas as células do nosso corpo,
os genes nas células somáticas diferenciadas se
expressam de maneiras diferentes em cada tecido, isto é,
a expressão gênica é específica para
cada tecido. Com exceção dos genes responsáveis
pela manutenção do metabolismo celular que se mantêm
ativos em todas as células do organismo, só iriam
funcionar, em cada tecido ou órgão, os genes importantes
para a manutenção deste. Os outros seriam mantidos
inativos.
Seria como um gêmeo monozigótico, idêntico,
nascido posteriormente. A experiência demonstrou que não
é um processo fácil.
A ovelha Dolly só nasceu depois de 276 tentativas que
fracassaram. A equipe retirou uma célula embrionária
normal de uma ovelha e removeu seu núcleo.
Depois, retiraram o núcleo de uma célula da glândula
mamária de outra ovelha e usaram corrente elétrica
para fundi-la com a célula enucleada. Além disso,
dentre as 277 células da mãe de Dolly que foram
inseridas em um óvulo sem núcleo, 90% não
alcançaram nem o estágio de blastocisto. De todos
os outros embriões que conseguiram se dividir e ser implantados,
apenas Dolly nasceu. Apesar das dificuldades, o nascimento do
primeiro mamífero clonado mostrou a possibilidade de um
núcleo de uma célula totalmente diferenciada gerar
um indivíduo adulto, aparentemente normal. Também
ficou o aprendizado que a clonagem como forma de reprodução
de mamíferos é extremamente ineficiente, com taxas
de sucesso em torno de 1%.
A morte precoce do primeiro mamífero clonado do mundo
mostra que a clonagem reprodutiva é perigosa mas mostrou
que é possível se produzir tecidos e órgãos
a partir de células-tronco. Dolly foi sacrificada na sexta-feira,14
de fevereiro de 2003, seis anos depois do seu nascimento, por
sofrer de uma doença pulmonar incurável, segundo
informações do Instituto Roslin, de Edimburgo, na
Escócia, onde se deu a clonagem. O fato volta a pôr
em evidência o envelhecimento precoce e os problemas de
saúde verificados nos animais nascidos mediante essa técnica.
A decisão foi resultado de exame que comprovou uma doença
degenerativa, comum em ovelhas com muita idade, explicou o diretor
interino do instituto, Harry Griffin. O corpo de Dolly foi prometido
para o Museu Nacional da Escócia, em Edimburgo, onde deverá
ficar exposto. Descobriu-se que os cromossomos de Dolly tinham
telômeros menores que os de animais concebidos de forma
natural. Telômeros são seqüências de DNA
que ficam na extremidade dos cromossomos. Acredita-se que eles
estejam associados ao envelhecimento celular, atuando como "cronômetros"
bioquímicos.
A tentativa posterior de clonar outros mamíferos, tais
como camundongos, porcos, bezerros e, mais recentemente, uma gata
chamada Cc, ou CopyCat, também tem mostrado uma eficiência
muito baixa e uma proporção muito grande de abortos
e embriões malformados. No caso de Cc, de 188 óvulos
clonados foram obtidos 87 embriões, mas somente um animal
vivo. Até hoje não se conseguiu clonar primatas,
como macacos, nem cães. Além disso, pesquisadores
do Japão acabam de relatar que camundongos clonados também
têm vida mais curta e apresentam problemas como lesões
hepáticas, pneumonia grave, tumores e baixa imunidade.
De qualquer modo, isso mostra que esta questão, que é
extremamente importante, continua em aberto. Sugere que existem
diferenças de acordo com a espécie animal, começam
com os diferentes tipos de óvulos e segmentação,
e que, portanto, não podemos extrapolar achados em modelos
animais para os humanos. Imagine-se uma criança com aspecto
e doenças de um velho.
Anos de pesquisa permitiram armazenar
um extenso conhecimento
sobre as células-tronco:
Totipotentes ou embrionárias:
são as que conseguem se diferenciar em todos os 216 tecidos
(inclusive a placenta e anexos embrionários) que formam
o corpo humano. São aquelas presentes nas primeiras fases
da divisão, quando o embrião tem até 16 -
32 células (até três ou quatro dias de vida).
Essas células são conhecidas como ES (embryonic
stem cells), e podem proliferar indefinidamente, in vitro, sem
se diferenciar, mas também podem se diferenciar se forem
modificadas as condições de cultivo. A grande conquista
foi encontrar as condições adequadas para que as
células ES proliferem e continuem indiferenciadas.
Pluripotentes ou multipotentes: são
as que conseguem se diferenciar em quase todos os tecidos humanos,
menos placenta e outros anexos embrionários. As pluripotentes
ou multipotentes surgem quando o embrião atinge a fase
de blastocisto (a partir de 32 -64 células, aproximadamente
a partir do 5.o dia de vida). Assim, as células internas
do blastocisto são pluripotentes enquanto as células
da membrana externa do blastocisto destinam-se a produzir a placenta
e as membranas embrionárias. Alguns trabalhos classificam
as multipotentes como aquelas com capacidade de formar um número
menor de tecidos do que as pluripotentes, enquanto outros acham
que as duas definições são sinônimas.
Pesquisas ainda em andamento indicam que até 14 dias depois
da fecundação, as células embrionárias
seriam capazes de diferenciar-se em quase todos os tecidos humanos.
Oligopotentes: são aquelas que
conseguem diferenciar-se em poucos tecidos. São exemplo
as encontradas no trato intestinal.
Unipotentes: as que conseguem diferenciar-se
em um único tecido. Estão presentes no tecido cerebral
adulto e na próstata, por exemplo.
O banimento quase universal da clonagem reprodutiva humana transferiu
a polêmica para a clonagem terapêutica para obtenção
de células-tronco embrionárias. Para muitos poderiam
ser substituídas por células-tronco adultas, que
recebem também a denominação individual de
pós-natal, por estarem presentes em recém-nascidos
e no cordão umbilical. Em junho de 2000, um grupo do Instituto
Karolinska (Suécia), liderado por Jonas Frisen, confirmou
que células-tronco neurais de camundongos adultos têm
capacidade generalizada de diferenciação, podendo
gerar qualquer tipo celular, de músculo cardíaco
a estômago, intestino, fígado e rim, quando injetadas
em embriões de galinha e camundongo. Esse resultado quebrou
todos os dogmas, indicando que uma célula-tronco adulta
é capaz de se diferenciar em qualquer tipo de célula,
independentemente de seu tecido de origem, desde que cultivada
sob condições adequadas. Pesquisas recentes constataram
que além da pele, do intestino e da medula óssea,
outros tecidos e órgãos humanos - fígado,
pâncreas, músculos esqueléticos (associados
ao sistema locomotor), tecido adiposo e sistema nervoso - têm
um estoque de células-tronco e uma capacidade limitada
de regeneração após lesões. A pluripotencialidade
das células-tronco adultas tem sido contestada por pesquisas
desenvolvidas em diversos laboratórios e Universidades
e, segundo eles, torna-se necessário a investigação
do uso de células-tronco embrionárias humanas nas
terapias celulares, comparando-as com as células-tronco
adultas.
Fonte: Publicado
no jornal Zero Hora de 06/10/2004 - por: Prof. Marco Bueno |